O que é e o que não é Psicanálise?

A Psicanálise não é terapia ou psicoterapia, é um método investigativo. Busca compreender os sentimentos, ações e reações, assim como a explicação e interpretação daquele conteúdo de traz sofrimento. Sendo assim, não trabalha com os sintomas, mas com sua causa. Não entra em contexto de cura, mas do alívio desses sintomas, a partir do conhecimento da causa. Procura tornar consciente o que está inconsciente, para que esse conteúdo seja ressignificado. Psicanálise não é orientação. Não trabalha com hipnose, mas com a livre associação de ideias. Sua proposta está voltada para o autoconhecimento.

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terça-feira, 11 de junho de 2024

Consciente X Inconsciente

Em nossa cultura é comum aprendermos desde cedo a racionalizar, sem de fato ter a noção desse mecanismo de defesa, mas pensando que ter uma explicação lógica para todas as questões humanas ou situações resolverá todos os nossos problemas.

A reflexão trará todas as respostas, essa é a premissa.

Se estamos ansiosos procuramos uma resposta racional e objetiva, "provavelmente é porque terei uma prova ou precisarei falar em público, depois isso passará".

Se estamos tristes, "é porque terminamos um relacionamento" e assim vai...
Na verdade esse racionalizar nada mais é do que uma desculpa para os sentimentos que enfrentamos cotidianamente, desculpas conscientes que criamos como forma de resolução para os problemas que nos afligem.
A questão é que, essa ansiedade começa a se repetir em outras situações, assim como essa tristeza, tendo como consequência reações orgânicas ou físicas, que podem perdurar por longos períodos e vão se agravando até o momento que não temos mais o controle, e explicar esses episódios de forma lógica não nos dará as respostas corretas, nem trará a cura desses sintomas. E pronto! Transtorno de ansiedade e depressão instalados com sucesso!

Essa é a cultura do consciente! Explicações simplistas para questões complexas, sem ter a real ideia dessa complexidade.

O mundo contemporâneo nos habilita para esse tipo de comportamento, ou seja, assim como a tecnologia, procuramos resolver tudo com grande velocidade e de forma robotizada, repetindo para nós mesmos que "tudo está bem".
Os compromissos e tarefas diárias são intermináveis, precisamos dar conta de tudo e findar o dia nos sentindo como super homens e super mulheres; a sensação de dever cumprido vale todo o cansaço e esgotamento mental. Será?
Até quando nos sujeitaremos a intermináveis tarefas e compromissos? Acreditando em uma energia inabalável?

A cada dia nos assemelhamos mais aos computadores, do ponto de vista da quantidade de processamento de tarefas, mas só compreendemos nossas limitações quando apresentamos "defeito", e aí pode ser tarde.
Começamos a nos perguntar o que está errado, mas "pode ser stress apenas". Tirar férias ou procurar um robby pode resolver.

Até pode ajudar, mas não resolverá o problema, apenas deixará a real causa mais escondida. Aí que entra o inconsciente!

Desconsiderado por muitos, acaba nos pregando peças, pois aquilo que está guardado ou "recalcado" pode vir à tona a qualquer momento.

Como disse anteriormente, vivemos em uma cultura do consciente, com suas explicações lógicas e simplistas e não aprendemos que nossa constituição psíquica possuí um inconsciente de grande importância, que nos protege de determinados sofrimentos, mas que se mantém ativo, nos avisando para ir com calma.
Nos sentimos compelidos a buscar ajuda, porque determinados sintomas fogem a regra do que é normal, porém ainda mantemos hábitos anteriores e, queremos a resolução para ontem, de forma rápida como tudo em nossa vida. Um medicamento que resolva todos os problemas ou uma terapia com cura mágica.
Não há como isso acontecer. Os sintomas foram se instalando aos poucos, devido as questões ocorridas lá na infância e ano após ano reforçados pela vida autômata que vivemos.

É preciso considerar o inconsciente como peça fundamental de nossa psique, entender que toda nossa vida tem um registro e impressões que ficam retidas no inconsciente e no consciente.

Viver não é fácil, mas pode se tornar melhor e prazeroso no momento em que entendemos que não precisamos ter tudo e dar conta de tudo, e que podemos errar, quantas vezes for necessário, até aprendermos.

A questão é que não existe uma rixa entre consciente e inconsciente, mas uma condição responsável por nos manter em equilíbrio.
Segundo Freud, o consciente é responsável por tudo o que podemos chamar de visível ou acessível e que temos acesso pela realidade.
Já o inconsciente é uma parte insondável, guardada nas profundezas de nossa mente, e não está acessível a nossa compreensão.

A proposta aqui não é me estender no pré-consciente, mas para efeito de dúvidas, este armazena informações que podem ser buscadas ou retomadas a qualquer momento.

Entender que somos um complexo psíquico relacionado com consciente, pré-consciente e inconsciente, e que precisamos considerar o inconsciente como parte importante de nossa psique, racionalizando menos e nos permitindo sentir mais, tendo um olhar para possíveis sintomas que podem surgir aos poucos, buscando compreender as questões que parecem perdidas ou inacessíveis no inconsciente, antes que venham à tona de forma desorganizada, causando grandes prejuízos psíquicos, fará grande diferença em nossas vidas.
Quando o inconsciente dá sinais, é preciso ouvir. E acreditem, ele dá pequenos sinais de que aquele conteúdo recalcado (reprimido) está se tornando mais palpável.
É preciso usar a consciência para compreender o que está vindo do inconsciente.
Enfim, é preciso sair do automatismo e dar mais espaço e significado aos nossos sentimentos.
O consciente e o inconsciente são maleáveis, não são estáticos, não existe uma barreira impermeável entre essas estruturas e em algum momento o conteúdo do inconsciente pode chegar à superfície em forma de sintomas e é importante que o consciente faça essa leitura.

Referências


Freud, S. (1980). Artigos sobre a metapsicologia. O inconsciente. In S. Freud, Obras completas (Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1980). Artigos sobre a metapsicologia. Repressão. In S. Freud, Obras completas (Vol. 14). Rio de Janeiro: Imago.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

A falta e o conflito do "ser"

 


Todos nós vivenciamos a falta de algo em diferentes momentos da vida; mas, e quando essa falta se torna patológica, no sentido que criar conflitos internos, beirando o desespero, e, em algumas situações chegando inclusive ao suicídio?

Falando dessa forma até parece bobagem e exagero, mas essa situação tem sido mais comum do que podemos imaginar.

Basta refletir quantos casos de suicídios foram apresentados em reportagens apenas neste ano. E estamos falando de pessoas conhecidas na mídia, imagina aquelas que não conhecemos! Os índices só aumentam.

E qual será o real motivo? Por que chegamos a esse ponto?

Existem inúmeras explicações para os atos contra a própria vida: o abandono, separação, a morte de um ente querido, perder emprego, dívidas, ter sido vítima de violência, ser alvo de constante preconceito ou bullying, enfim, podemos narrar fatos diversos, mas nunca chegaremos ao cerne da questão; por uma simples razão. Há pessoas que passam por alguma dessas situações (ou por várias) e não tiram a própria vida.

Dessa forma, entendemos que cada um tem uma maneira única de ver a vida, a partir de suas vivências e experiências anteriores.

É bem verdade que somos um emaranhado de sentimentos, dúvidas e conflitos, que estão relacionados diretamente com nossa vida desde a infância. No entanto, esses sentimentos, dúvidas e conflitos vêm de alguma frustração, ou seja, não é tão simples quanto pensamos.

O sofrimento é positivo

Considerado um pessimista, Arthur Schopenhauer acreditava que o sofrimento era algo positivo, pois se fazia sentir com facilidade; enquanto a felicidade, considerada negativa, era apenas a interrupção momentânea da dor e do tédio, que eram uma condição inerente à existência.

Sim, condição inerente, uma vez que o ser humano nunca está satisfeito, sempre está a buscar e conquistar algo que julga faltar. E quando conquista o que quer, a felicidade dura pouco, até perceber que quer algo além do que foi conquistado.

E assim vive a vida. Pequenos momentos de felicidade e longos momentos de sofrimento, de falta.

A revolução industrial e a corrupção da alma

Fazendo um retrocesso, é importante considerar que os fatos históricos têm interferência direta na forma em que vivemos na contemporaneidade.

A revolução industrial trouxe grandes mudanças não apenas no modo de produção, mas também no comportamento humano.

Fortaleceu ainda mais o capitalismo, criando condições e possibilidades de acesso a bens de consumo e materiais que antes não eram possíveis; roupas, TVs, rádios, carros, etc. adquiriam grande importância na vida das pessoas.

De repente, os bens materiais tornaram-se mais importantes do que as relações.

E de onde vem a falta?

Acostumados ao novo modo de viver (trabalhar – produzir, receber – adquirir), a sociedade entrou em um ciclo vicioso, ter, ter e ter.

Assim vivemos. Somos produtores e consumidores.

A cada novo bem adquirido ou nova conquista, nos sentimos motivados a ir além, vivendo nessa eterna busca. Ou seria eterna falta?

Porém, engana-se quem pensa que o sofrimento pela falta está relacionado aos bens materiais. Mesmos aquelas pessoas que têm tudo, grande riqueza, podem sentir essa falta.

Isso por que a falta que sentimos é um vazio, algo difícil de explicar. Um vazio na alma, que tentamos compensar com bens materiais.

Relações superficiais

Hoje, as relações são superficiais, ou como diria Zygmunt Bauman "as relações escorrem pelo vão dos dedos"; as pessoas mantêm contato e até relacionamento pelas redes sociais. Postam uma vida ilusória, como uma competição de quem é mais feliz ou realizado, mas em quatro paredes o sofrimento vem à tona.

A frustação está presente em nossas vidas.

E a pergunta "qual é o sentido da vida?" tem razão de existir.

Qual o sentido da vida?

Ainda que não haja uma resposta clara e objetiva para esse questionamento, sabemos que faz todo o sentido (sem trocadilhos), pois é a partir daí que começamos a pensar em "ser" e não apenas em ter.

Talvez seja uma reflexão que levaremos para o resto da vida, mas enquanto isso, durante o processo de busca por uma resposta, estaremos sendo mais fiéis aos nossos sentimentos e às nossas faltas.

Entendendo nossas faltas, aceitaremos que não precisamos parecer felizes a todo momento, pois podemos ser felizes verdadeiramente, ainda que tenhamos que passar por situações difíceis.

Conclusão

Na busca por ter bens materiais, conquistar posições, sucesso e dinheiro, deixamos de lado nossa essência, e, essa essência é o que nos mantém conectados com algo maior. Pode ser uma crença, uma religião, ou apenas uma forma de ver a vida, não importa, a questão é que precisamos ir além do que nossos olhos são capazes de ver. Entender que somos inteiros e integrados, e que não precisamos do que vem de fora para nos sentirmos realizados.

A falta sempre existirá, mas a diferença entre quem tira a própria vida pelo sofrimento da falta e quem aprende a ser resiliente, está em como lidar com essa falta, e como usá-la a nosso favor, para o crescimento enquanto "ser".

O que é sintoma


O entendimento sobre sintoma, tanto de seu surgimento quanto de seu significado, passou por algumas etapas, e, ainda que a psicanálise tenha apresentado inúmeros estudos, para uma melhor explicação, nenhuma das ideias anteriores foram desconsideradas.

Isso se deve ao fato de que cada nova pesquisa (teórica e prática) foi complementando e enriquecendo o arcabouço teórico da psicanálise, ampliando o espaço para melhor atuação analítica.

Freud explicava o sintoma como uma representação, na totalidade ou em parte, da atividade sexual do sujeito, provinda das fontes das pulsões parciais, normais ou perversas. Os sintomas estavam diretamente relacionados às questões sexuais, sendo a realização de um desejo para satisfazer a libido, mas que acabavam por resultar em um conflito psíquico. Nesse processo ocorria o embate entre duas forças (ID e EGO), e o sintoma seria uma forma de se reconciliarem, como se fizessem um acordo.

Como dito anteriormente, essa teoria se confirma até hoje, porém o sintoma pode estar relacionado a outras questões além das sexuais.

Como e por que surge o sintoma?

O sintoma pode surgir por vários motivos, como: desejos reprimidos, inaceitáveis para o ego, e traumas provenientes de situações dolorosas.

O trauma provém de experiências e representações das quais nosso EGO não está pronto para receber; por isso não podem ser integradas a nossa mente e acaba sendo cindidas, ou seja, separadas para outra camada, que é nosso inconsciente.

Essa permanência não se dá forma passiva, pois deixa uma marca, um registro, que tentará vir à tona de tempos em tempos. A esse estímulo para qual a mente não tem resposta é o que Freud chamou de trauma.

Pois bem, como esse trauma não pode ser pensado, pois é algo extremamente doloroso, assim como um desejo que do ponto de vista do sujeito é absurdamente imoral, e por isso causa grande sofrimento, o corpo acaba pagando o preço.

Daí surgem as questões físicas como as dores de cabeça, tonturas, paralisias, cegueira, entre outras, e as questões cognitivas relacionadas a problemas de memória, fala, organização, planejamento, concentração, etc.

Dessa forma, entendemos que o sintoma é o extravasamento de uma ideia traumática.

Desejos incompatíveis aos preceitos morais da pessoa podem lhe causar um desprazer insuportável. Eles fazem pressão para se apresentarem a consciência e o eu, EGO, faz uma contrapressão para mantê-los no inconsciente, reprimindo-os.

Quando essa repressão não é bem sucedida, causa o conflito, chegando a um nível de dor que ameaça a identidade da pessoa.

Assim temos a seguinte equação: conflito, repressão, retorno do reprimido/recalcado, vazando em forma de sintoma.

Aquilo que foi calado, não elaborado, escondido, ainda que involuntariamente, voltará violentamente, de forma disruptiva.

Parece simples, mas não é.

O sintoma é um estranho que habita em nós, não se trata apenas dos efeitos físicos e cognitivos; ele está presente quando fazemos algo que não entendemos e parece sem sentido para nós mesmos, causando estranheza. Repetimos as mesmas ações, as mesmas escolhas e os mesmos erros, sem entender o porquê.

O sintoma está no lugar de um pensamento ou de um desejo, pois não pode existir em pensamento, por se tratar de algo doloroso. Então ele existe enquanto ato, atuação disruptiva.

Vamos lembrar, que a pessoa não sabe o motivo do sintoma, pois o pensamento sobre o que o causou "não existe", foi reprimido.

A proposta na clínica psicanalítica é justamente trazer o que está no inconsciente para o consciente, aliviando os sintomas e possibilitando o autoconhecimento para que essas questões possam ser melhor elaboradas.

Quanto mais consciente sobre nós, menos sofreremos com os sintomas; pois aquilo que não sabemos a nosso respeito nos controla.


Referências

Freud. Sigmund. Inibição, sintoma e medo. Editora L&PM. Rio Grande do Sul.2016. 


quarta-feira, 5 de junho de 2024

O que é transferência e sua importância



A transferência é o deslocamento do sentido atribuído de pessoas do passado para pessoas do nosso presente e é executada pelo nosso inconsciente.

De acordo com a teoria freudiana, esse fenômeno é fundamental para o processo de cura.

No início da análise observa-se a necessidade da criação de vínculo na situação analítica. Não é raro perceber o entusiasmo do paciente com a pessoa do analista, supervalorizando suas qualidades.

O paciente/analisando, de modo geral, demonstra amabilidade e procura reagir de modo favorável às interpretações da analista, esforçando-se para compreendê-las e se deixando absorver pela tarefa.

Dessa forma, além da relação cordial que prevalece durante o trabalho, ocorre a melhora em vários aspectos da doença. Nesse aspecto podemos dizer que há uma transferência positiva, e essa forma de transferência pode ser chamada de fenômeno que facilitará o processo analítico, tornando o paciente mais suscetível à influência do analista, justamente por existir nessa relação um sentimento de empatia, respeito e admiração.

Quando o vínculo está estabelecido criando boa relação entre analista e analisando, as resistências baixam dando condição e espaço de confiança para que seja realizada a livre associação.

Porém, essa relação amistosa pode não permanecer, surgindo dificuldades no tratamento, que se revelam de diversas maneiras, refletindo na impossibilidade de o paciente continuar seguindo a regra fundamental. Esse aspecto precisa ser olhado com muita cautela, pois essa mudança tem algum componente a ser analisado.

Nesse contexto aparece uma certa negligência em relação às instruções inicialmente dadas no sentido de dizer tudo o que lhe vem à cabeça e de não permitir que obstáculos críticos impeçam de fazê-lo. Quando o paciente começa a apresentar comportamento como se não estivesse no tratamento, consideramos que está ocorrendo uma resistência. Nestes casos, a situação precisa ser esclarecida, caso contrário o processo analítico estará em risco.

Se é verdade que a transferência positiva é de grande importância no tratamento do paciente, também é verdade que a transferência negativa tem suas contribuições.

É importante compreender que a transferência pode também ser negativa, e é principalmente com ela que o analista deve se preocupar, porque este tipo de vinculação reflete, de forma direta, a resistência ao trabalho analítico.

Esse tipo de transferência reflete o deslocamento de impulsos agressivos; os sentimentos hostis costumam ficar ocultos por detrás dos afetuosos, e tendem a se revelar mais tarde, embora também se possa encontrar a coexistência de ambos, marcando a ambivalência emocional.

Assim como os sentimentos afetuosos, os hostis indicam a presença de um vínculo afetivo, ainda que com um sinal de menos e devem ser considerados transferenciais.

Vale ressaltar que esses sentimentos deslocados ao analista, segundo Freud, não podem ser creditados à situação produzida no setting analítico, uma vez que é preciso descobrir o local de sua origem, pois, provavelmente, eles já existiam anteriormente, vindo à tona a partir da oportunidade oferecida pelo tratamento.

O paciente repete na transferência as situações reprimidas no passado como sendo algo atual, pertencente ao presente. Essa atualização de sentimentos é importante para que novos comportamentos, sentimentos e pensamentos sejam elaborados.

Nessa situação como o analista deve agir?

Freud propõe que o analista não deve ceder às exigências do paciente, decorrentes da transferência, mas que também não as rejeite, procurando superar a transferência através da interpretação, mostrando ao paciente que a origem de seus sentimentos não está na situação atual, nem se aplica à pessoa do analista, tratando-se, antes, da repetição de algo de seu passado.

Essa repetição pode ser transformada em lembrança a partir do seguinte trabalho esquematizado: repetir (movimento inconsciente), recordar e elaborar (movimento consciente).

O padrão de transferência apresentado pelo paciente ao analista é determinado por sua neurose e considerado um componente da mesma.

A elaboração desse processo leva tempo e deve ser cuidadosamente trabalhada pelo analista. Tanto a transferência positiva quanto a transferência negativa causam impactos decorrentes das experiências e vivências do paciente com as figuras primordiais do seu passado.

O psicanalista precisa ter consciência e saber identificar essa projeção de sentimentos, bem como perceber o momento em que essa situação pode se transformar em um obstáculo para o andamento e progresso da análise.

Transferir é uma capacidade humana por excelência, presente não somente na relação analítica, mas em inúmeras outras situações de interação social.

A questão é que no setting analítico ela é de extrema importância, não podendo ser dito que o trabalho analítico está sendo realizado sem ter se estabelecido o vínculo transferencial.

A partir do exposto é possível entender que a análise só começará quando iniciar o processo transferencial. Ele é crucial e necessário para o sucesso do tratamento. Um fator indispensável é que o analista esteja em análise pessoal, pois isso vai assegurar que seus conteúdos afetivos não se misturem e interfiram negativamente nos processos do analisando.

Assim concluímos a importância da transferência para a eficiência da análise; em psicanálise, tudo é importante, toda reação e comportamento do analisando tem importância, inclusive a transferência negativa.

 

A resistência no setting analítico



Quando falamos sobre a resistência do analisando, pensamos que por ter procurado auxílio deveria estar aberto às condições que a análise exige. Mas será que essa resistência é consciente, ou é inconsciente? Caso seja consciente, como podemos "quebrá-la"? Caso seja inconsciente, como acessar esses conteúdos que impedem o analisando de se abrir, de acessar o conteúdo recalcado que está lá guardado, esperando um momento oportuno ou não para vir à tona.

Podemos dizer que a resistência é tudo aquilo que atrapalha a continuidade do trabalho terapêutico e que dificulta o acesso ao inconsciente, prejudicando uma evolução das questões apresentadas.

É importante compreender que o objetivo não é o analisando aceitar uma interpretação oferecida pelo analista, sem ter entendimento e aceitação da lógica dessa interpretação na teoria psicanalítica.

A proposta é buscar uma compreensão dos mecanismos mentais que alimentam essa resistência.

Por trás de tal defesa podemos supor a existência de determinados desejos inconscientes reprimidos.

É justamente essa tomada de consciência de tais desejos o objetivo do tratamento psicanalítico; pois de acordo com essa teoria, eles têm uma íntima relação com a origem dos problemas do paciente.

Por que ocorre a resistência?

São várias as razões que levam o analisando a apresentar resistência, entre elas pode ser o medo inconsciente de acessar uma lembrança muito dolorosa e sofrida, ainda que seja essa a proposta da análise, ou seja, para a compreensão daqueles sintomas apresentados. Pode também estar relacionado a um conteúdo de cunho sexual que cause vergonha, ou a um desejo voltado para perversão e até questões mais complexas, como machucar alguém de fato.

Freud observou que o indivíduo pode ter a capacidade e a vontade consciente de deixar de renunciar ao seu sintoma e ainda assim não conseguir abandoná-lo devido a determinados fatores inconscientes. São justamente esses fatores que Freud denominou de resistências.

Das concepções de resistência Freud nos apresenta duas particularmente interessantes: a primeira é a "resistência da doença", a resistência de uma doença ao tratamento, à cura.

Outro conceito Freud traz da palavra "resistência" em seus escritos iniciais é no sentido de uma "resistência do organismo'", ou do paciente; assim poderíamos dizer – uma resistência do organismo à doença.

Partindo da concepção propriamente psicanalítica da resistência, simplificando e considerando os fenômenos neurais, a resistência ao tratamento psicanalítico se expressa em fenômenos como: a censura, ou seja, o impedimento que certos conteúdos acedam à consciência, o que toma a forma de uma resistência à lembrança de certos eventos; a resistência à interpretação, seja dos sonhos ou de quaisquer outros fenômenos em uma análise; e a simples resistência a associar livremente.
Estes três fenômenos têm em comum a resistência a estabelecer associações com os conteúdos recalcados.

E como superar essa resistência?

Freud explica que é importante dar ao paciente tempo para conhecer melhor a resistência com a qual acabou de se familiarizar, para elaborá-la, superá-la seguindo com o trabalho analítico.

Só quando a resistência está em seu auge é que pode o analista, trabalhando em comum com o paciente, descobrir os impulsos recalcados que estão alimentando a resistência; e é este tipo de experiência que convence o paciente da existência e do poder de tais impulsos.

Assim entendemos que a análise não é da resistência, mas do conteúdo identificado. E essa elaboração é a parte do analisando, enquanto ao psicanalista cabe a interpretação do revelado pelo paciente. Com isso, podemos conceber a resistência tanto como obstáculo quanto como possibilidade para continuidade da análise.
Nesse contexto a resistência pode adquirir o lado negativo ou positivo.
Negativo quando não é bem elaborada e seu conteúdo permanece incógnito criando afastamento na relação analista e analisando, até o momento que o analisando entende que não quer mais fazer a análise, pois é algo sofrido e desconfortável.
Positivo quando a superação da resistência traz à tona as respostas que serão de grande ajuda para a identificação do conteúdo recalcado e possibilitará o alcance de resultados positivos.

Como forma de ampliar o conhecimento, as resistências podem ser dividas em:

Provenientes do ego

Resistência de repressão: repressão que o ego "produz" frente a qualquer percepção que venha causar sofrimento.

Resistência de transferência: resistência do paciente contra a emergência de transferência em relação ao analista.

Resistência de ganho secundário: são aquelas egossintônicas, onde o paciente "pretende" usar da própria doença em seu benefício.

Provenientes do id

Resistências contra a mudança: relacionadas à "compulsão à repetição", onde o paciente inconscientemente resiste a impulsos instintivos que possam promover mudanças em sua forma de "viver", ou sobreviver, e se expressar.


Provenientes do superego

Resistências do superego: claramente relacionadas a sentimento de culpa e necessidade de punição.

Assim concluímos que existem diferentes tipos de resistência e como colocado no início do texto, algumas são conscientes, no entanto, de forma gera,l o analisando apresenta uma resistência inconsciente que deverá ser elaborada para compreensão desse conteúdo e para compreensão da melhor forma de auxílio a ser prestado.


Referências 
 
Freud, S. (1888/1987). Histeria. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 1, pp. 63-83) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1889/1987). Resenha de Hipnotismo, de August Forel. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 1, pp. 109-121) (2a ed.). Rio de Janeiro: Imago.

 

Mecanismos de defesa do ego


É comum pensar que o ego é totalmente consciente; no entanto, uma parte dele é  inconsciente. Um exemplo disso são os mecanismos de defesa que nossa psique utiliza como forma de nos proteger. Podemos dizer que são estratégias inconscientes usadas pelo ego para lidar com conflitos, ansiedade e ameaças emocionais, que podem nos desequilibrar.

Embora pareça uma forma de fugir da realidade e de não encarar os problemas, os mecanismos de defesa são importantíssimos como forma de nos manter dentro de uma realidade aceitável.

De uma forma inconsciente a pessoa não quer tomar conhecimento de um fato, pensamento ou sentimento, pois trazê-lo à tona causaria grande sofrimento psíquico e até a perda da realidade.

Os mecanismos de defesa vão possibilitar à pessoa uma relação com o mundo, garantindo sua sobrevivência psíquica.

Vamos conhecê-los!

Negação

A negação diz respeito a não aceitação da realidade. A verdade pode ser dolorosa demais para o indivíduo enfrentar. Não aceitar a perda de alguém, não aceitar um diagnóstico, não aceitar que tem problemas de alcoolismo, ou com uso de substâncias químicas e outros, dizem respeito à negação. Alguns indivíduos negam uma determinada situação, para que as consequências negativas não se perpetuem ao longo de sua vida. Escolha equivocada, por sinal.

Regressão

Este mecanismo faz com que o Ego retorne a um ponto anterior no desenvolvimento. O desenvolvimento dos indivíduos se dá na infância, através das fases oral, anal e fálica; dessa forma, quando o indivíduo se sente pressionado, pode regressar a um desses estágios e reproduzir comportamentos referentes a ele. Surge assim um ponto de fixação em uma determinada fase de desenvolvimento, fazendo com que a pessoa volte ao seu estado primitivo ou infantil de acordo com o ponto de referência.

Repressão

É o ato de esquecer alguma experiência desagradável e dolorosa, como um acidente, situações de abuso, violência, etc. Este mecanismo se assemelha a negação nesse sentido genérico, mas não pode haver uma negação daquilo que não recordamos, pois foi reprimido. A repressão também atua quando não queremos fazer algo desagradável, como ir ao médico ou uma reunião estressante, e o indivíduo simplesmente deleta esse pensamento.

Deslocamento

O indivíduo transfere sentimentos negativos como raiva, frustração, angústia e dor do seu objeto de origem, a um outro, pois este segundo oferece menos perigo. Por exemplo, a pessoa pode reprimir os sentimentos de raiva perante o chefe, mas desconta nos familiares ao chegar em casa. Situação bem comum, infelizmente.

Projeção

O indivíduo reconhece uma característica de que não gosta em si e que pode lhe causar dor, então projeta essa insegurança nas falas e atitudes de quem o cerca. Quando faz uma crítica a alguém, na verdade está falando de si mesmo.

Intelectualização

Aqui acontece o afastamento de uma situação dolorosa de modo que o indivíduo não encara as consequências emocionais dela. Diferentemente da negação, onde há a recusa em aceitar a realidade, o episódio doloroso é reconhecido na intelectualização, ou seja, o indivíduo sabe e vivencia a sua existência, mas aprende a focar em outras consequências que não as emocionais. Seria como olhar o lado positivo da situação.

Racionalização

O mecanismo de racionalização está ligado a um comportamento inadequado do indivíduo relacionado à moral e aos valores ditados pela sociedade. Dessa forma, tenta justificar a ação buscando explicações racionais, chegando a culpar os outros pelo ocorrido.

Formação reativa

Na formação reativa, ocorre a inversão de sentimentos perante um objeto de desejo. Por exemplo, se alguém possui apreço ou amor por algo ou alguém, mas sabe que esse sentimento, seja por razões sociais ou pessoais, não é correto, o indivíduo não admite o que sente e passa a ter emoções opostas extremas.

Sublimação

Na sublimação o indivíduo substitui as ações inadequadas, pensamentos e sentimentos, que julga serem errados, por outras atividades, como se isso anulasse seu real sofrimento.


Referência

Freud, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. Porto Alegre. Editora Artmed, 2006.

terça-feira, 4 de junho de 2024

A história da loucura. De médico e louco...



Você já parou para pensar o que é a loucura? Será que existiu mesmo ou era apenas uma forma de explicar algo que não se tinha conhecimento?

Sabemos que, o que foi há muito tempo chamado de loucura, hoje tem a designação de transtorno mental, doença mental, ou, mais especificamente relacionado a psicose, se pensarmos no diagnóstico do ponto de vista da psicanálise.
No entanto até chegar a esse patamar, digamos assim, a loucura passou por várias conceituações, podendo ser entendida de diversas maneiras.
O mais comum é a loucura ser considerada como uma perda de consciência de si, de sua existência e de seu lugar no mundo.

Em segundo lugar, como uma doença ou um estado mental decorrente de algum tipo de alteração do cérebro.

Em terceiro lugar, como a dificuldade emocional relacionada às situações ou acontecimentos em contexto familiar ou contexto social considerados problemáticos.
Estes são os conceitos que atualmente estão inseridos nas designações dos transtornos mentais; porém, o termo loucura também foi utilizado para caracterizar pessoas que apresentavam algum desequilíbrio em relação às normas sociais, inclusive com ideias diferentes sobre o respeito às regras estabelecidas e impostas por instâncias superiores. Somando a isso, também foi utilizado para caracterizar pessoas que, por alguma razão não conhecida, fugiam ou evitavam cumprir com seus compromissos sociais ou familiares, e, por fim, pessoas que diziam ter ampliado a consciência, olhando a vida de maneira mais profunda, com outro significado, o da transcendência.

Assim, percebemos o quanto é difícil descrever ou conceituar a loucura, justamente por todas essas distintas manifestações e inconstância.
Essas diferentes maneiras de entender a loucura, embora pareça confuso, nos dá um panorama muito interessante de seu real significado, uma vez que precisamos ter em mente que a loucura não é uma condição oposta à normalidade ou à racionalidade, mas uma condição que pode ocorrer dentro da própria normalidade e da racionalidade, e por um período de tempo determinado, sendo apenas momentâneo, ou indeterminado, para toda a vida tendo seu agravamento ao passar dos anos.

Dessa forma, entendemos que a noção de loucura depende muito do contexto social no qual se está inserido ou na época.

De acordo com Foucault, cada cultura seleciona uma série de condutas e modos que consideram como normais ou adequados, e coloca todo o restante como anormal ou patológico. Assim, cada sociedade estabelece um padrão do que é aceito e do que deve ser reprimido, corrigido ou ajustado.

A doença mental, portanto, pode ser tão variável quanto são os costumes de um grupo social.

Compreendemos então a necessidade de colocar em questão o entendimento sobre a loucura relacionando-a unicamente à patologia, entendendo como algo a ser tratado ou ajustado dentro dos padrões ou normas.

É preciso ir além desta compreensão, de modo a buscar suas diferentes formas de expressão, tendo um olhar sobre os problemas e limitações do mundo em que vivemos que muitas vezes nos tolhe.

Sendo assim, podemos tanto enxergar a loucura como um ato de coragem ao recusar as normas e regras de conduta instituídas, e como a capacidade entender o mundo de diferentes maneiras, e de, a partir dessas maneiras, se colocar nele, ou como aquele que se torna perigoso para os demais e para si mesmo, necessitando de tratamento para conviver em sociedade de maneira adequada.

Foucault esclarece que somente a partir do século XIX a loucura passou a ser concebida como doença mental, sendo resultante de alterações na fisiologia do cérebro. Suas estruturas e manifestações foram classificadas e descritas por meio de uma nosografia (classificação de doenças por classes, ordens, sistemas, gêneros, espécie) categorizando termos como histeria, transtorno obsessivo compulsivo, mania, depressão, fobia, paranoia entre outros.
Essas categorizações, no entanto, ainda são muito frágeis e questionáveis, pois são limitadas. Alguns pesquisadores explicam que essas categorias deveriam considerar outros "hábitos" patológicos, criando mais opções para o diagnóstico.
Então podemos dizer que, atualmente, a loucura tem classificação e pode ser diagnosticada, porém aí existe um contraponto. E qual é?

É simplesmente a capacidade do ser humano criar novas designações para aquilo que não pode ser explicado.

Sabemos que o DSM V nos traz as classificações dos diversos transtornos mentais, isso é fato. Porém, é como se essas classificações não tivessem o mesmo significado da loucura. E, em vez de compreender que se trata de nomear as diferentes formas de loucura é como se a loucura adquirisse outro viés.
Respondendo aos questionamentos iniciais...sim, a loucura, com seu conceito inicial, puramente "loucura" ainda existe e sempre existiu, não é porque criaram novas classificações com seus sinais e sintomas distintos que deixaremos de nos considerar loucos ou aos demais.

A loucura sempre estará presente em nosso vocabulário, sendo usada nas mais variadas formas e contextos, sem relacionar a qualquer tipo de transtorno mental, mas simplesmente para designar algo diferente daquilo que consideramos dentro do quadro de normalidade.


Referências

FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva. 2008.

FOUCAULT, Michel. Loucura, literatura, sociedade. In: Motta, Manoel Barbosa (Org.). Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p.232-258. 2006.

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